Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Quero repousar nos seus braços.

   Quero repousar o meu cansaço nos teus braços quentes. Quero permanecer no seu corpo como tatuagem e rabiscar o seu caderno com meu nome, para nunca mais me esquecer. Quero ficar embriagada de amor nos teus braços, quero ficar tonta com seu cheiro e viajar pelo sabor do seu beijo. Estou no abraço eterno da saudade, e os seus braços e abraços não são tão calorosos quanto os seus. E em seus braços quero permanecer uma eternidade sem cortes, uma infinita estrada sem curvas.  

   Permanecer unida ao seu corpo como se fossemos um só. Sentir sua respiração em meu ouvido e encostar a cabeça na curva do seu pescoço. O melhor lugar do mundo. Onde nem o frio nem dor existe, somente eu e você em nosso universo paralelo. Deliciar-me com seu hálito de menta no meu rosto enquanto você sussurra doces palavras, e depois traço o belo caminho do seu rosto até sua orelha e depois paro e permaneço no seu pescoço. Para sempre.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Desenho.

Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.


Cecília Meireles.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada contra o olvido 
contra o sem sentido
apelo do não.

As coisas tangíveis 
tornam-se insensíveis 
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas
essas ficarão.


Carlos Drummond de Andrade.