Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mesmo crescendo, algumas coisas nunca aprendemos.

   Recordei-me-ei quando era mais nova, e olhava para minha mãe e minha irmã e achava que ser mais velha era bom, que tudo é mais fácil. Poder ficar em casa só, sair sem companhia, ter namorado. Era eu, tão desinformada que não julgava o quão fácil era ser criança. A gente cresce e percebe que fácil era o tempo que joelhos ralados e perder o desenho animado eram as maiores das preocupações que poderíamos ter, se é que naqueles bons tempos nos preocupávamos com alguma coisa.

   Assistia o jornal das 8 esperando começar a novelinha infantil que sempre passava após o mesmo. Olhava as notícias, observava a queda do dólar ou tal guerra civil que aconteceu em tal país e fingia entender para impressionar os parentes que estavam perto, mas nunca entendia uma palavra do que falavam. Lembro do medo que senti quando assisti O Chamado pela primeira vez e passei a dormir com o corpo todo coberto, apesar do calor de dezembro. 


   Lembro que não sabia comer de garfo e faca, e quando tentava fazia arrozes voar pela a cozinha e minha mãe gritava comigo. De quando estudar era fácil, e não existiam deltas e leis de conservação no meu dia-a-dia. Lembro do medo que sentia ao dormir sem minha mãe do lado ou ficar no escuro sozinha. Lembro-me de como me lambuzava ao comer aquele chocolate que sobrava na panela.


  Sim, ainda raspo chocolate da panela. Hoje ao invés de sentir medo do escuro, simplesmente estou adaptada a ele. Algumas coisas ainda são fáceis, mas sempre há aquelas que sempre serão difíceis, mesmo passando pela situação milhares de vezes. Talvez o amor seja um dessas situações, mesmo não querendo amar, ao pensar acabamos amando sem querer. Talvez a raiva incontrolável também, aquela sensação quente que sobre para a cabeça, e de repente tudo que olhamos se transforma em uma arma mortífera capaz de matar instantaneamente.


    Algumas coisas mudam, querido. Mas só porque mudam, não significa que aprendemos.


Gabrielle Abreu.

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